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Fernando Pessoa é o poeta dos heterónimos; o poeta que se desmultiplica ou despersonaliza na figura de inúmeros heterónimos e semi-heterónimos, dando forma por esta via à amplitude e à complexidade dos seus pensamentos, conhecimentos e percepções da vida e do mundo; ao dar vida às múltiplas vozes que comporta dentro de si, o poeta pode percepcionar e expressar as diferentes formas do universo, das coisas e do homem. Será curioso lembrar que a palavra pessoa comporta em si este simbolismo do desdoramento fictício, do assumir em pleno uma personagem, se recordarmos que é as das máscaras de teatro dos actores clássicos, representantivas de uma personagem, que surge a palavra persona, origem etimológica de pessoa. Os heterónimos podem ser vistos como a expressão de diferentes facetas da personalidade de Fernando Pessoa e como a manifestação de uma profunda imaginação, criatividade e ficção que desde cedo se revela no poeta - recorde-se que o primeiro heterónimo, o Chevalier de Pas, foi inventado quando o poeta tinha seis anos. Os mais conhecidos e com produção literária mais consistente e constante são, no entanto, outros: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Mas para além destes heterónimos Fernando Pessoa, desdobrou-se em inúmeros semi-heterónimos e pseudónimos, personalidades com uma biografia traçada com maior ou menor detalhe, personalidades com vidas literárias mais ou menos intensas, personalidades que acompanharam o poeta durante um tempo muito ou pouco significativo e que, quantas vezes, se desbobram elas mesmas em outras. Teresa Rita Lopes, na sua obra Pessoa por Conhecer (Lisboa, Editoral Estampa, 1990, 2vol.), dá-nos a conhecer uma diversidade muito significativa destas facetas de Fernando Pessoa, algumas muito pouco estudadas e outras inéditas ou praticamente inéditas. Do período da sua visita a Portugal com a família (entre Agosto de 1901 e Setembro de 1902) conhecem-se algumas personalidades que com ele colaboram nos seus primeiros percursos jornalísticos- nos seus jornais manuscritos A Palavra e O Palrador, de difusão reservada ao próprio e ao seu meio familiar, e onde escreve, em língua potuguesa, apesar da educação em língua inglesa que vinha recebendo, textos de índole diversa. Uma dessas personalidades é o Dr. Pancrácio que colabora em ambos os jornais e que irá acompanhar o poeta quer no seu regresso a Durban, onde se manifestará através de um ensaio humorístico, escrito em inglês, quer no regresso definitivo de Fernando Pessoa a Portugal, em 1905, continuando a sua colaboração no projecto do O Palrador. No jornal O Palrador, do período de 1902, colaboram também, para além do Dr. Pancrácio, Pedro da Silva Salles, como redactor, Luiz António Congo, como secretário de redacção, José Rodrigues do Valle, na direcção literária e, como administrador, António Augusto Rey da Silva. Fernando Pessoa cria, pois, não só um jornal mas também toda a equipa necessária para dar vida ao projecto.
Nesse jornal viria a colaborar, também nesse período, Eduardo Lança, um brasileiro que fixa residência em Lisboa e aí se dedica à sua publicação literária e que acompanha também Fernando Pessoa no regresso, em 1903, a Durban. Em Durban, novas personalidades vão sendo criadas: Alexander Search e o irmão Charles James Search, Robert Annon e David Merrick. De regresso definitivo a Portugal, no ano de 1905, Fernando Pessoa faz-se acompanhar destes companheiros de actividade literária. Para além dos irmãos Search, viaja ainda com ele um françês: Jean Seul de Méluret. A cada uma destas personalidades, Fernando Pessoa atribui projectos literários, distribuindo, deste modo, a sua vontade de intervir na vida cultural daquela que sempre foi a sua pátria, a sua nação. Regressado a Portugal, Fernando Pessoa retoma os seus jornais manuscritos. Ao O Palrador, dirigido, nesta nova série por Gaudêncio Nabos, acrescentam-se mais dois jornais: O Phosphoro e O Iconoclasta. Respondendo aos seus planos de intervir sobre a sociedade portuguesa, que considera empobrecida e viciada, vai ensaiando textos críticos e humorísticos que visam, por exemplo, a política e a religião. Outra das muitas personalidades criadas por Fernando Pessoa foi Joaquim Moura Costa o qual colabora nestes dois periódicos, através de textos que manifestam bem o seu espírito satírico e revolucionário.
Pantaleão foi outro dos colaboradores de O Phosphoro. Personagem multifacetada, volta-se para o jornalismo, para a poesia, para os textos humorísticos; é militante ufpublicano e tece críticas veementes à igreja católica e à monarquia. Por esta altura aparece também, como que num desdobramento daquele, o Torquato Mendes Fonseca da Cunha Rey que, antes de morrer, encarrega Pantaleão de publicar um texto seu.
No projecto de Fernando Pessoa para a Empresa Íbis, em 1907, projecto inserido no seu espírito patriótico que se manifesta, nomeadamente, pela vontade de contribuir para a divulgação da cultura portuguesa, colaboram Vicente Guedes (personagem muito associada a Bernardo Soares, este último assumido por Pessoa como semi-heterónimo), Carlos Otto e os já conhecidos Joaquim Moura Costa e Charles James Search. Carlos Otto, além de colaborar no projecto da Empresa Íbis, surge também, com Pantaleão, Joaquim Moura Costa e Fernando Pessoa ligado ao jornal O Phosphoro.
Do período do sensacionismo e do interseccionismo, Teresa Rita Lopes, na obra já mencionada, dá-nos conta de personalidades como António Seabra, Frederico Reis (provavelmente um irmão do heterónimo Ricardo Reis), Diniz da Silva, Thomas Crosse e I.I. Crosse, sendo estes últimos os divulgadores, em língua inglesa, do sensacionismo. Parece ter existido um outro irmão Crosse, A.A. Crosse, aquele que respondia, em jornais ingleses, a concursos de charadas e do qual Fernando Pessoa fala a Ophélia (a resposta a concurso de charadas não é novidade no Fernando Pessoa de 1919, já que, em Durban também disputava destes concursos através do nome de Tagus).
A esta lista devem ainda acrescentar-se o psicólogo F. Antunes, que surge por volta de 1907, Frederick Wyatt e os seus irmãos Walter e Alfred (este último com residência em Paris onde convive com Mário de Sá-Carneiro), o Barão de Teive, personalidade literária cuja obra continua por conhecer e que expressa a faceta de inadaptação e o sentimento de exclusão do seu demiurgo, Bernardo Soares (a quem acabou por ser atribuído o Livro do Desassossego, pensado tanto para Vicente Guedes como para o próprio Fernando Pessoa) e Maria José que, segundo Teresa Rita Lopes, terá sido a voz feminina que mais se destacou no universo das criações pessoanas.
Além dos nomes de Botelho e de Quaresma (e de tantos outros!) destaca-se ainda o de António Mora, personalidade associada ao paganismo, o que assume o "papel" de louco (dando expressão a um tema que Fernando Pessoa vive com profunda intensidade) de uma Casa de Saúde de Cascais e que, exprimindo-se como médico, vem diagnosticar o homem moderno, nele detectando o louco-doente. Colabora com Pessoa em projectos para algumas revistas.
As personalidades mais conhecidas são, como mencionámos, os heterónimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Para cada um destes homens, Fernando Pessoa desenhou uma cuidada biografia, um horóscopo, um retrato fisíco completo, traçou as suas características morais, intelectuais, ideológicas. Três personagens diferentes, cada qual com uma actividade literária distinta, personagens que se conhecem e entram em polémica uns com os outros, bem como com o demiurgo, três facetas de um mesmo homem que da dispersão parece ter feito condição de encontro consigo próprio.
Para o nascimento de Ricardo Reis, quer na mente do poeta, quer na sua "vida real", Fernando Pessoa estabele datas distintas. Primeiro afirma, de acordo com o texto de Páginas Íntimas e de Auto- Interpretação (p.385) que este nasce no seu espírito no dia 29 de Janeiro de 1914: O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando ufparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, que se ia desenvolvendo.. Mais tarde, numa carta a Adolfo Casais Monteiro datada de 13 de janeiro de 1935, altera a data deste nascimento afirmando que Ricardo Reis nascera no seu espírito em 1912. Fernando Pessoa considera que este heterónimo foi o primeiro a revelar-se-lhe, ainda que não tenha sido o primeiro a iniciar a sua actividade literária. Se Ricardo Reis está latente desde o ano de 1912, a julgar pela carta mencionada, é só em Março de 1914 que o autor das Odes inicia a sua produção, desde então continuada e intensa, e sempre coerente e inalterável, até 13 de Dezembro de 1933. Também no que respeita à biografia de Ricardo Reis Fernando Pessoa apresenta dados distintos. No horóscopo que dele fez, situa o seu nascimento em 19 de Setembro de 1887 em Lisboa às 4.05 da tarde. Na referida carta a Adolfo Casais Monteiro altera a cidade natal de Ricardo Reis de Lisboa para o Porto.
Médico de profissão, monárquico, facto que o levou a viver emigrado alguns anos no Brasil, educado num colégio de jesuítas, recebeu, pois, uma formação clássica e latinista e foi imbuído de princípios conservadores, elementos que são transportados para a sua concepção poética. Domina a forma dos poetas latinos e proclama a disciplina na construção poética. Ricardo Reis é marcado por uma profunda simplicidade da concepção da vida, por uma intensa serenidade na aceitação da relatividade de todas as coisas. É o heterónimo que mais se aproxima do criador, quer no aspecto físico - é moreno, de estatura média, anda meio curvado, é magro e tem aparência de judeu português (Fernando Pessoa tinha ascendência israelita)- quer na maneira de ser e no pensamento. É adepto do sensacionalismo, que herda do mestre Caeiro, mas ao aproximá-lo do neoclassicismo manifesta-o, pois, num plano distinto como refere Fernando Pessoa em Páginas Íntimas e Auto Interpretação, (p.350): Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Ricardo Reis tem outra disciplina diferente: as coisas devem ser sentidas, não só como são,mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regras clássicas.
Associa-se ainda ao paganismo de Caeiro e suas concepções do mundo vai procurá-las ao estoicismo e ao epicurismo (segundo Frederico Reis a filosofia da obra de Ricardo Reis resume-se num epicurismo triste - in Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p.386). A sua forma de expressão vai buscá-la aos poetas latinos, de acordo com a sua formação, e afirma, por exemplo, que Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero (Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p.393).
Alberto Caeiro, o «mestre», em torno do qual se determinam os outros heterónimos, nasceu em Abril de 1889 em Lisboa, mas viveu grande parte da sua vida numa quinta no Ribatejo onde viria a conhecer Álvaro de Campos. A sua educação cingiu-se à instrução primária, o que combina com a simplicidade e naturalidade de que ele próprio se reclama. Louro, de olhos azuis, estatura média, um pouco mais baixo que Ricardo Reis, é dotado de uma aparência muito diferente dos outros dois heterónimos. É também frágil, embora não o aparente muito, e morreu, precocemente (tuberculoso), em 1915. O mestre é aquele de cuja biografia menos se ocupou Fernando Pessoa. A sua vida foram os seus poemas, como disse Ricardo Reis: A vida de Caeiro não pode narrar-se pois que não há nela mais de que narrar. Seus poemas são o que houve nele de vida. Em tudo o mais não houve incidentes, nem há história.(in Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p. 330)
Aparece a Fernando Pessoa no dia 8 de Março de 1914, de forma aparentemente não planeada, numa altura em que o poeta se debatia com a necessidade de ultrapassar o paúlismo, o subjectivismo e o misticismo. É nesse momento conflituoso que aparece, de rompante, uma voz que se ri desses misticismos, que reage contra o ocultismo, nega o transcendental, defendendo a sinceridade da produção poética, um ser manifestamente apologista da simplicidade, da serenidade e nitidez das coisas, um ser dotado de uma natureza positivo-materialista e que rejeita doutrinas e filosofias. É este ser que no dia 8 de Março escreve de rajada 30 e tal poemas de O Guardador de Rebanhos. Grande parte da produção poética de Ricardo Reis parece ter sido sempre escrita deste jeito impetuoso em momentos de súbita inspiração.A essa voz, Fernando Pessoa dá o nome de Alberto Caeiro.
Alberto Caeiro dá também voz ao paganismo. Segundo Fernando Pessoa, A obra de Caeiro ufpresenta uma reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer.(Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p.330)
Apresenta-se como o poeta das sensações; a sua poesia sensacionista assenta na substituição do pensamento pela sensação (Sou um guardador de rebanhos./ O rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações.). Alberto Caeiro é o poeta da natureza, o poeta de atitude antimística (Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o./ Sou místico, mas só com o corpo./ A minha alma é simples e não pensa./ O meu misticismo é não querer saber. / É viver e não pensar nisso).
É o poeta do objectivismo absoluto. Ricardo Reis afirma que Caeiro, no seu objectivismo total, ou, antes, na sua tendência constante para um objectivismo total, é frequentemente mais grego que os próprios gregos. (Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p. 365). É também o poeta que ufpudia as filosofias quando escreve, por exemplo, que Os poetas místicos são filósofos doentes / E os filósofos são homens doidos e que nega o mistério e o a busca do sentido íntimo das coisas:O único sentido íntimo das coisas / É elas não terem sentido íntimo nenhum..
Fernando Pessoa deixou um texto em que explicita o valor de Caeiro e a mensagem que este poeta nos deixou e pode servir de base para a comprrensão da sua obra:
A um mundo mergulhado em diversos géneros de subjectivismo vem trazer o Objectivismo Absoluto, mais absoluto do que os objectivistas pagãos jamais tiveram. A um mundo ultracivilizado vem restituir a Natureza Absoluta. A um mundo afundado em humanitarismos, em problemas de operários, em sociedades éticas, em movimentos sociais, traz um desprezo absoluto pelo destino e pela vida do homem, o que, se pode considerar-se excessivo, é afinal natural para ele e um correctivo magnífico. (Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p. 375)
Álvaro de Campos nasceu em 1890 em Tavira e é engenheiro de profissão. Estudou engenharia na Escócia, formou-se em Glasgow, em engenharia naval. Visitou o Oriente e durante essa visita, a bordo, no Canal do Suez, escreve o poema Opiário, dedicado a Mário de Sá-Carneiro. Desiludido dessa visita, regressa a Portugal onde o espera o encontro com o mestre Caeiro, e o início de um intenso percurso pelos trilhos do sensacionismo e do futurismo ou do interseccionismo. Espera-o ainda um cansaço e um sonambulismo poético como ele prevê no poema Opiário: Volto à Europa descontente, e em sortes / De vir a ser um poeta sonambólico.
Conheceu Alberto Caeiro, numa visita ao Ribatejo e tornou-se seu discípulo: O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma .(Páginas Íntimas e Auto Interpretacão, p. 405)
Distancia-se, no entanto, muito do mestre ao aproximar-se de movimentos modernistas como o futurismo e o sensacionismo. Distancia-se do objectivismo do mestre e percepciona as sensações distanciando-se do objecto e centrando-se no sujeito, caindo, pois, no subjectivismo que acabará por enveredar pela consciência do absurdo, pela experiência do tédio, da desilusão (Grandes são os desertos, e tudo é deserto / Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.) e da fadiga (O que há em mim é sobretudo cansaço - / Não disto nem daquilo, / Nem sequer de tudo ou de nada: /Cansaço assim mesmo, ele mesmo, /Cansaço).
Álvaro de Campos experimentara a civilização e admira a energia e a força, transportando-as para o domínio da sua criação poética, nomeadamente nos textos Ultimatum e Ode Triunfal. Álvaro de Campos é o poeta modernista, que escreve as sensações da energia e do movimento bem como, as sensações de sentir tudo de todas as maneiras. É o poeta que mais expressa os postulados do Sensacionismo, elevando ao excesso aquela ânsia de sentir, de percepcionar toda a complexidade das sensações.
A sua primeira composição data de 1914 e ainda em 12 de outubro de 1935 assinava poesias, ou seja, pouco antes da morte de Fernando Pessoa o qual cessara de assinar textos antes de Álvaro de Campos.
Explicações possíveis da heteronímia
Vários caminhos convergentes, assinaláveis nas prosas inéditas, nos levam a explicações possíveis da heteronomia - como se a pluralidade estivesse realmente no cerne do "caso" literário de Fernando Pessoa e a consciência disso manejasse os fios do seu pensamento.
Eis algumas dessas explicações:
- A constituição psíquica de Pessoa, instável nos sentimentos e falho de vontade, teria gerado a multiplicação em personalidades ou personagens do drama em gente.
Pessoa explica o aparecimento dos heterónimos dizendo que a origem destes reside na sua histeria, provavelmente histeroneurastenia, logo numa "tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação".
Vários fragmentos das Páginas Íntimas atendem "à dispersão do eu".
- A qualidade de poeta de tipo superior levá-lo-ia à despersonalização. Com efeito, na concepção de Fernando Pessoa, segundo um fragmento inédito, há quatro graus de poesia lírica e no cume da escala, onde ele se coloca, o poeta torna-se dramático por um dom espantoso de sair de si.
No segundo grau, "o poeta ainda mais intelectual, começa a despersonalizar-se, a sentir, não já porque não sente, mas porque pensa que sente, a sentir estados de alma que realmente não tem, simplesmente porque os compreende. Estamos na antecâmara da poesia dramática, na sua essência íntima. O temperamento do poeta, seja qual for, está dissolvido pela inteligência. A sua obra é unificada só pelo estilo, último reduto da sua unidade espiritual, da sua coexistência consigo mesmo.
"O quarto grau da poesia lírica é aquele muito mais raro, em que o poeta, mais intelectual ainda, mas igualmenta imaginativo, entra em plena despersonalização.
Não só sente, mas vive os estados de alma que não tem directamente, supondo que o poeta, evitando sempre a poesia dramática, externamente, avança ainda um passo na escala da despersonalização.
Certos estados de alma, pensados e não sentidos, sentidos imaginativamente e por isso vividos tenderão a definir, para ele, uma pessoa fictícia que os sentisse sinceramente.
Não se detém Pessoa precisamente no limiar do seu caso excepcional de poeta múltiplo, autor de autores?
A heteronímia seria o termo último de um processo de despersonalização inerente à propria criação poética e mediante o qual Pessoa estabelece uma axiologia literária.
O poeta será tanto maior quanto mais intelectual, mais impessoal, mais dramático, mais fingidor - é o sentido pleno da "Autopsicografia".
O progresso do poeta dentro de si próprio, realiza-se pela autoria sobre a sinceridade, pela conquista (lenta, difícil), da capacidade de fingir: "A sinceridade é o grande obstáculo que o artista tem de vencer. Só uma longa disciplina, uma aprendizagem de não sentir senão literariamente as coisas, pode levar o espírito a esta culminância.
A alquimia poética pressupõe o aniquilamento da sinceridade humana, um longo tratamento das sensações como ingredientes. O génio é uma alquimia. O processo alquímico é quadrúpulo: 1) putrefacção; 2) albação; 3) rubificação; 4) sublimação.
Deixam-se primeiro apodrecer as sensações, depois de mortas embranquecem-se com a memória; em seguida rubificam-se com a imaginação; sublimam-se pela expressão.
Exprimir poeticamente significa fingir.
- A qualidade de português levaria o poeta a despersonalizar-se, a desdobrar-se em vários.
"O bom português é várias pessoas - reza um fragmento inédito. Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim - Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa e quantos mais haja havidos ou por haver".
Se um indivíduo deve despersonalizar-se para seu progresso interior, uma Nação deve desnacionalizar-se - e esta é em particular a vocação portuguesa.
O ideal que Pessoa inculca a Portugal, é consequentemente o que se propõe a si próprio: "Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa" - o pluralismo, o politeísmo.
- A multiplicidade do escritor seria o produto necessário de uma nova fase de civilização - fase que Fernando Pessoa caracteriza ao explicar o Orfeu e o sensacionismo dum ângulo sociológico.
A decadência da fé, quebra de confiança na ciência, a complexidade de opiniões traduz-se pela ânsia actual de "ser tudo de todas as maneiras".
A poesia poderá entender-se também como resposta a um estado colectivo de crise, mas em sentido diferente, isto é, como antídoto, como bálsamo espiritual.
Caeiro, libertador imaginário, um remédio (provisório) para a dor de pensar de que sofre Pessoa ortónimo, uma fuga.
Pessoa ter-se-ia dividido para se compensar.
Heteronimia seria um modo de suprir a carência, verificada na época, de personalidades superiores, e em especial de grandes personalidades na literatura portuguesa: "Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se ele só em literatura?".
Textos poéticos de Ricardo Reis
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
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Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
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Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
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Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
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E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
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Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
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Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama e bebe
E cala. O mais é nada.
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Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos.
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.
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A nada imploram tuas mãos já coisas,
Nem convencem teus lábios já parados,
No abafo subterrâneo
Da úmida imposta terra.
Só talvez o sorriso com que amavas
Te embalsama remota, e nas memórias
Te ergue qual eras, hoje
Cortiço apodrecido.
E o nome inútil que teu corpo morto
Usou, vivo, na terra, como uma alma,
Não lembra. A ode grava,
Anónimo, um sorriso.
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Tudo o que cessa é morte,e a morte é nossa
Se é para nós que cessa. Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.
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Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre - sem dita nem desdita,
como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.
Textos poéticos de Álvaro de Campos
CRUZ NA PORTA da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-star que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.
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Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.
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Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e dia.
Desde ontem a cidade mudou.
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Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte daquilo onde estou.
Horror fechado de tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.
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Mas ao menos a ele alguém o via.
Ele era fixo, eu, o que vou.
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.
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TODAS AS CARTAS de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor de não fossem
Ridículas.
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Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
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As cartas de amor, se há amor,
Tem de ser
Ridículas.
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Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
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Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
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A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
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(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
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ORA ATÉ que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...
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Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
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E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
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Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
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Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido
em vários -
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na
pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...
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"Apontamento"
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu nas mão da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mim pedaços do que havia loiça no vaso.
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Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
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Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
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Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
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Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
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Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
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Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem porque ficou ali.
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"Aniversário"
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antida, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
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No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinhamm por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da via.
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Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu sermenino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
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O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que er sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É eu estar sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
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No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
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Vejo tudo outra vez com uma mitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com
mais copos.
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na somra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
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Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quandoo for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
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"Poema em linha recta"
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
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E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
QUE tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómodo às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentidoo piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedindo emprestado sem
pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
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Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
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Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me contasse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
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Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
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Então sou só eu que é vile erróneo nesta terra? _____________
Poderão as mulheres não os terem amada,
Podem ter sido trídos - mas rídiculos nunca!
E eu, que tenho sido redículo sem ter sido trído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Textos poéticos de Alberto Caeiro
"Guardador de Rebanhos - Poema V"
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
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O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
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Que ideias tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
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Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas)
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O mistério das cousas? Sei lá o que é o mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
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Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas,
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
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"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
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Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
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O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
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Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
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(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar nelas ensina.)
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Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
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Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
e luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
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E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
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Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se isso aconteceu, assim está certo.
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Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
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Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
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Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal e só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nehuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
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Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
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Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.
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Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído
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Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
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Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nehuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi isto com os olhos, nunca como pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
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Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
Unidade ou Diversidade
"Um dos pontos de reflexão das considerações de Fernando Pessoa é a solidão a que qualquer ser humano está votado(…) perdido diante da infinidade cósmica, divorciado dos outros por se ter adiantado demais aos companheiros de viagem e afastado de si próprio por não encontrar a unidade que nem os deuses têm." 1
"Deus não tem unidade,
Como a terei eu?"
(Ined. 68)
O problema da unidade em Pessoa tem vindo a ser alvo dos mais complexos estudos.
Jacinto Prado Coelho: "unidade na multiplicidade pelo simples facto de os heterónimos trazerem cada um uma resposta à inquietação crucial do poeta"
O problema da unidade pode ser colocado do ponto de vista de identidade divergente.
Mário Sacramento pronuncia-se desta forma "se por unidade não nos resignamos a confundir a identidade resultante da permanência pura e simples de certas características de índole, concepção e estilo, isto é, se por unidade implicarmos uma acepção dialéctica de pensamento que se opõe para se ultrapassar teremos de a negar à obra de Fernando Pessoa na medida até em que conviermos que os problemas criados pelos heterónimos coexistem na sua obra ortónima (..) os heterónimos serviram assim de referência a Pessoa como pontos de referência às suas tão-só mais ousadas dicotomias intímas."
Numa carta a Cortes-Rodrigues, Pessoa escreve: "Tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos..."
Embora esta passagem denuncie uma crise psíquica consigo próprio, no entanto, a sua gradualmente adquirida auto disciplina tem conseguido unificar dentro de si "aqueles elementos divergentes que "eram susceptíveis de harmonização".
Parece bastante a Pessoa (ele o diz) o ter posto em Caeiro, Reis, Campos" um profundo conceito de vida", diverso em todos os três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa do existir".
Chama também "insincera" à literatura que não contenha " uma fundamental ideia metafísica " pela qual transmita uma noção da gravidade e do mistério da vida.
Na obra "A Metáfora em Fernando Pessoa "Maria da Glória Padrão tenta auscultar as múltiplas trajectórias de absurdização que o poeta imprime às suas próprias condições de vida.
O método bachelardiano de exegese do imaginário fica ao serviço de uma perspectiva diferente: a do existencialismo.
Através do método bachelardiano, o que a autora vai buscar à obra de Pessoa é sobretudo uma tipologia de concepções (parciais ) do mundo, ou da vida, que o poeta sucessiva ou alternativamente esboça para as reduzir ao absurdo.
Mário Sacramento, no ensaio que lhe consagrou, também se empenhou no mesmo objectivo. Mas com uma diferença: Maria da Glória Padrão baseia o seu trabalho num levantamento de imagens a partir do texto, e não num levantamento de tópicos doutrinários, como Sacramento.
Glória Padrão identifica estas trajectórias de absurdização como matéria de obra poética, ao passo que Sacramento as encara como testemunho da não- genialidade de Pessoa.
Para Glória Padrão, aquilo que caracteriza a mundividência de Pessoa é afinal uma extrema radicalização daquele sentimento de desamparo perante a vivência do infinito a que Pascal deu a expressão típica e que constitui uma das fontes históricas do existencialismo.
Pascal revelou a consciência de um ser humano perdido na infinidade dos espaços que a mecânica clássica acabava de descobrir na sua época.
Na perspectiva pascaliana, o sentir-se perdido no infinito espacial assinala outro infinito que é humano: o infinito da consciência: a infinidade do tempo e a infinidade dos graus psíquicos da consciência-inconsciência.
O que Pessoa faz como pessoa literária, na abulia que é comum a todos os contrastes heteronímicos é tentar transcender, exprimir através duma vontade real essa abulia.
Pessoa, paralelamente a Pascal, restabelece a dialéctica pensante, imaginante, metaforizante e quanto possível vivente da sua obra no contexto do seu e do nosso mundo.
Como homem e como poeta, Pessoa tenta desvendar essa metáfora do projecto social,numa tentativa constante de humanizar , humanizando-nos.
A metáfora deixou de ter uma finalidade puramente retórica para desempenhar um função duplamente objectiva e subjectiva.
"A metáfora é ela mesma designação metafórica pela multiplicidade ilimitada das suas causas, dos seus efeitos e das suas funções."
Através das suas constantes figurações concretas do abstracto, Glória Padrão tenta captar a consciência do homem que ditou a estrutura da obra.
Depois de distinguidas e recolhidas as metáforas, tenta uma classificação e uma organização de imagens, seguindo um caminho de inclusão dos grupos imagéticos em dois dos quatro elementos clássicos - ar e água -, com o apoio da psicanálise e em processos de classificação temática procura estabelecer a sintaxe das imagens que o poeta é.
Conclui, tendo como ponto de partida o texto, que a obra explica o homem "o mesmo homem que inscreveu ,segundo uma verdade ontológica, as suas realidades na matéria da língua".
As realidades de Pessoa que mais depressa se percepcionam são o sentido de morte em plano horizontal, o que o faz um grande solitário à beira da vida que é forçoso viver e que o conduz à sensação do "escorrer "dos dias e do tempo desligado.
A consciência do tempo leva-o ao tédio e arrasta-o à resultante da incompatibilidade entre a existência e a razão - assim acaba no absurdo.
Liberta-se da realidade próxima objectiva e lança-se nos sonhos sem limite - encontra uma paz feita de irreal , mas nem por isso menos concreta.
Para a expressão destas realidades, há uma organização de imagens à volta de uma que é mais forte e as domina , a "image nourriciére" de que fala Bachelard.
O poeta deixa uma família de imagens coordenar-se e hierarquizar-se pela eleição da mais forte que vai ser o testemunho do seu pré-consciente.
O espaço integrará extensões indefinidas de imensidade e espaços circunscritos a pequenas dimensões, e todas serão a acusação duma forma de solidão perante a imensidade dos mundos ou da vida quotidiana; em torno do elemento água organizar-se-ão as imagens contraditórias de águas correntes e de águas paradas , de mar calmo e de mar agitado, símbolos de um tipo de destino; som, cor, luz, noite, céu azul, traduções de sensações desmesuradas"subtis e evanescentes", têm como imagem centralizadora o ar, símbolo duma plenitude sonhada.
O tempo será o denominador comum dos quatro poetas, todos eles empenhados num sistema aparentemente diferente de procura,mas todos a acabar na inutilidade duma pesquisa que leva ao absurdo.
É a consciência que cria os absurdos, é a inteligência que cria os paradoxos - o encontro duma verdade com a respectiva contradição lógica ou outra verdade.
Do estudo realizado, sempre e só fundamentado no texto, Glória Padrão chega à conclusão de Jacinto Prado Coelho: Fernando Pessoa não é uma divisão em personalidades diferentes; na sua diversidade formal, há uma unidade de problemas.
"Se Caeiro, Reis e Campos, são eles próprios imagens ditadas pelo mesmo anseio profundo, de conhecer a verdade, a consciência que elegeu essas formas de procura é única, é a mesma que elegeu as suas imagens, presentes sempre com a mesma significação original e última em cada um dos quatro nomes principais com que Pessoa assina os seus versos"2
Índice A Filosofia Hermética
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