O Laboratório de Expressão Facial da Emoção (FEELab), da Faculdade de Medicina da Universidade Fernando Pessoa, apresentou a 16 de abril, no Porto, os resultados de uma investigação longitudinal de 20 anos sobre a Doença de Alzheimer, conduzida sob a coordenação do Professor Doutor Freitas-Magalhães.
O estudo, pioneiro ao nível internacional, evidencia que a expressão facial da emoção permanece preservada mesmo em fases avançadas da doença, apesar da progressiva deterioração cognitiva. A investigação acompanhou doentes ao longo de duas décadas, analisando padrões expressivos através de metodologias científicas de codificação facial.
Os resultados agora apresentados estão sintetizados no livro “Alzheimer: O Cérebro, a Face e a Emoção”, publicado em edições portuguesa e inglesa, obra que propõe uma nova leitura científica da doença ao integrar neurociência, medicina, psicologia, expressão facial e emoção.
A publicação constitui um marco no estudo da relação entre a degeneração cerebral e a comunicação emocional, sendo descrita como “uma obra profundamente humana que convida a olhar para além do esquecimento”.
De acordo com os dados apresentados, os circuitos neuroemocionais demonstram uma resistência significativa à degeneração, permitindo que os doentes continuem a expressar emoções de forma coerente com os seus estados internos, como, por exemplo, o medo, a alegria e a dor. “A emoção não desaparece com a doença. O que se perde é a capacidade de a organizar cognitivamente, mas a face continua a expressar aquilo que o cérebro já não consegue verbalizar”, afirmou o Professor Freitas-Magalhães.
A investigação destaca ainda o papel das neuromicroexpressões como indicadores sensíveis do estado emocional, particularmente em fases em que a comunicação verbal se encontra comprometida. “A face torna-se o último canal de comunicação emocional do doente com o mundo”, sublinhou o Diretor do FEELab/UFP.
As implicações clínicas são amplas, com o impacto direto na avaliação da dor, do sofrimento emocional e do bem-estar dos doentes com Alzheimer. A leitura sistemática da expressão facial poderá contribuir para intervenções mais ajustadas e para uma maior humanização dos cuidados de saúde.
“Estamos perante uma mudança de paradigma: a avaliação clínica não pode depender apenas daquilo que o doente diz, mas também daquilo que a face revela”, defendeu o Professor Freitas-Magalhães, acrescentando que “a integração da codificação facial na prática clínica poderá transformar a forma como cuidamos destes doentes”.
Além da prática clínica, os resultados abrem novas perspetivas para a formação de profissionais de saúde, o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial para monitorização emocional e a criação de protocolos inovadores centrados na pessoa.
Esta investigação reforça o papel do FEELab/UFP e da Universidade Fernando Pessoa na vanguarda da neurociência da emoção, afirmando a face como um biomarcador essencial da experiência humana, mesmo em contextos de doença neurodegenerativa profunda.